Morro do Castelo visto da Ilha das Cobras – Eugène Cicéri, 1852

Isto não é um manifesto. Se quer ouvir bravatas revolucionárias ou conservadoras, dirija-se, por favor, a algum outro lugar. Manifestos são peças de artilharia de engenharia social ou arroubos saudosistas de esquecidos impotentes. Não sonhamos com futuros exultantes ou lamentamos o passado perdido. Nosso tempo é presente! E o presente está prenhe do passado e grávido do futuro.

Não somos heróis do proletariado, salvadores da pátria e nem candidatos a gurus esotéricos sazonais. Somos simplesmente escritores. E o somos porque acreditamos na força da escrita, do belo, do justo e dos símbolos compartilhados.

Embora todos nós, membros fundadores, tivéssemos que nos submeter, cada um a seu tempo, à formação universitária exigida, temos consciência que a burocracia universitária se apropriou de todo o campo do pensamento, da arte e da cultura. Isto é para nós um problema. Em outros lugares do planeta, essa discussão em torno da burocratização universitária da cultura está sendo travada. Queremos trava-la aqui, no Brasil.

Por isso é preciso abandonar ou destruir à Universidade? Não, muito pelo contrário, é preciso continuar produzindo com ela, lutando para que ela supere aquilo que se tornou. É preciso não ser conivente e nem omisso.

No campo do fazer literário, o terreno onde estamos a agir, a academia se apossou da literatura para quase matá-la. E se seguem: Estruturalismos, Formalismos, Estéticas da recepção, Análises do Discurso, Pós-estruturalismos, Semióticas, Hermenêuticas New Criticisms, Fenomelogias, Psicanálises, Estudos Culturais…

Achamos que antiga e franca erudição generalista do leitor informado era muito mais próxima da missão de promover uma conexão entre escritores e leitores. Onde se fala língua de gente, meu Deus? Depois que a crítica literária foi aparelhada pelo cientificismo acadêmico desapareceram a crítica e, depois, a literatura.

E nós estamos aqui para tentar fazê-la aparecer, nem que seja entre os escombros com os quais ainda tentamos fazer nossa escrita artística. E dirigida a todos! Sem a literatura, não teremos mais o oceano comum de valores e palavras para compartilhar. Daí, falarmos, falarmos e não nos entendemos mais. Será tarde? Estamos vivos, não é tarde!

Alguém aí, roube a literatura das mãos desses professores que só falam certas línguas para excluir os que não são do grupelho! Se você estiver tentando fazer isto, estamos aqui para ajudá-lo! Esperamos também contar com sua ajuda.

Mas, é preciso dizer, outra derivação burocrática da arte e do conhecimento, também surgida dos bancos universitários, contribuiu para o alastrar desse tempo sem arte e sem palavras que cimentem as brechas do tecido de significações e símbolos que nos unem: a Comunicação Social.

Aos poucos, por exemplo, os poemas e romances, que eram a expressão máxima dos saberes, esperanças e perplexidades coletivas, foram-se tornando obras de entretenimento. Hoje, obras de catálogo são produções de Ciências, planejadas, por definição, para serem acessíveis somente a especialistas. Romances e poemas, dentre outros, textos profundos, mas, destinados à coletividade, são hoje produtos descartáveis. Literatura é sobremesa, descanso e conversa de nefelibata.

E a produção e distribuição desses produtos literários, feitos por maluquinhos e simpáticos geniozinhos exóticos, são controladas por profissionais de Comunicação Social, editores, com seus manuais de boa redação e máquinas de calcular, e pela indústria do livro. O escritor que se adapte e se submeta!

Por isso é preciso destruir a indústria do livro? Não, muito pelo contrário, precisamos é erguer livros e debates mostrando que literatura não é sobremesa e nem papo de poeta afetado. É produto de primeira necessidade.

Ou enlouquecemos de vez.
Está difícil continuar caminhando entre certa perspectiva histórica hegemônica que se tornou mentora de uma espécie de suicídio cultural coletivo. Supostamente emancipadora, ela “desconstrói” irresponsavelmente tudo o que é nacional, ocidental, clássico, harmônico, tradicional. E nos obriga a exaltar toda espécie de lixo, desde que seja o oposto disso tudo que está aí.

Por outro lado, como se fosse uma resposta sensata, todo o tipo de passadismo ridículo se apresenta como candidato a “alta cultura”. E somos obrigados a escolher entre normatividades revolucionárias ou regras estéticas passadistas de bons alunos, reacionários de conservatórios.

Não nos adaptamos e nem nos submeteremos. Não retornaremos ao útero da tradição. E nem nos esconderemos na utopia.

Somos, portanto, um grupo de amigos, leitores e escritores, que acha fundamental que recuperemos certa perspectiva de nossas tradições, literárias e culturais, não de forma meramente saudosista, mas, para que possamos continuar caminhando. Temos escritas, histórias de vida e perspectivas muito diversas entre nós. Pouco importa. Estamos unidos porque ainda somos escritores e nossas memórias e histórias comuns não serão arrancadas das costas da cidade como foi o Morro do Castelo.

Nascemos em reuniões feitas no sopé, inexistente, do que seria o Morro do Castelo. A referida montanha, um dos primeiros lugares em que se desenvolveram habitações do que hoje é o Rio de Janeiro, em nome de permitir melhor circulação de ar, foi simplesmente arrancada, como um quisto, das costas da cidade. Alguém pensou em urbanizar, consertar, reconstruir, preservar? Como seria o Rio se ainda houvesse o Morro do Castelo? O Morro do Castelo é uma metáfora. E eloquente!

Não! Não achamos que seria o paraíso. Não queremos sequer reconstruí-lo. A metáfora é poderosa justamente devido à ausência do Morro. A história não faz curva e nem é possível passa-la a limpo. O que podemos – e devemos fazer – é olhar para o futuro e falar do Morro do Castelo. E de tantas outras coisas que nos fizeram cariocas, fluminenses, brasileiros, ocidentais, humanos…

Como está exposto, não queremos normatividades revolucionárias que viraram clichês, nem as estéticas passadistas reacionárias, amplamente desgastadas. Sim, reconhecemos em cada uma de nossas fibras ideológicas e estéticas que estamos em pleno mal-estar desse tempo de morte das ideologias e das estéticas. Mas, isto significa que estamos perdidos, como se zarpássemos de um porto não mais tão seguro em direção a um vazio?

Seria se não tivéssemos a escrita. A morte das ideologias não é a morte das ideias. Ao contrário, talvez, seja o momento em que mais precisemos delas. Ainda que erráticas, esperamos que nossas angústias e esperanças germinem. Mortos os coletivismos, quem sabe, este seja o exato momento para a atividade solitária e solidária de escrever e criar. Nada mais coletivo que a solidão de um livro.

Não estamos unidos porque pensamos igual. Achamos que o problema não é sequer a ideologia ou as estéticas. O problema é a intolerância ideológica e a normatividade estética. Nossa confiança recíproca nasce das pessoas às quais nos unimos. Um escritor, um artista, um pensador, é antes de tudo uma pessoa que aceita ser tudo o que é, com angústias, imperfeições, lacunas em seus conhecimentos. Daí este texto não ser, de modo algum, um manifesto. Não sabemos como será a arte perfeita e o modelo de sociedade ideal. Nem queremos saber.

Mas, ainda acreditamos que temos histórias e ideias para compartilhar. Não em busca do passado e, muito menos, em fuga para o futuro.

No fim, são apenas histórias e modos de dizer. Sem artificialismos, sem programas, sem esoterismos, sem paranóias ou mistificações. E cada um se apropriará delas e a transformará em alguma outra coisa. Quem sabe, em sua própria história. E, então, irá conta-la do seu jeito, ainda assim, mesmo que corra o risco de sequer ser compreendido. Por diversão, por necessidade, por amor, por medo, por prazer…

Muito prazer, Sociedade Literária do Morro do Castelo. Contamos com a sua companhia.

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