Talvez tenha sido no baixar dos panos do ano de 2016 que surgiu o primeiro esboço do que viria a ser a Sociedade Literária do Morro do Castelo. Nas últimas semanas do mês de dezembro daquele ano, surgiu a ideia da criação de uma revista que congregasse intelectuais para repensar o cenário brasileiro encontrado três anos após as manifestações de 2013, evento que despertou uma onda de polarizações alterando o panorama social e político do país. A revista, que foi chamada de Outsider, pois pretendia trazer um olhar visto do lado de fora, de fora da caixa, de fora dos espectros políticos e, principalmente, de fora dos interesses político-partidários, teve sua primeira edição em janeiro de 2017 tendo como editores Leonardo Vichi e Cláudio Carvalho e, entre seus vários articulistas, Cid Prado Valle e Pedro Machado.

Logo após a segunda edição uma breve despedida ocorreria, Leonardo Vichi partiria para a Alemanha para a conclusão de sua tese de doutorado. A despedida marcou o primeiro impulso que originaria a sociedade. Em um encontro de despedida dos membros da Revista, realizada na tradicional Confeitaria Cavé, no Centro Histórico da Cidade do Rio de Janeiro, entre quitutes, refrescos e guloseimas, Cláudio Carvalho contaria sobre seu projeto de escrever um novo romance, cujas fontes documentais encontravam-se na Alemanha. Como Leonardo Vichi tinha em sua agenda longas peregrinações a arquivos na Alemanha, Áustria e República Tcheca, este incluiu estas fontes documentais nos seus planos. Tão logo encontradas as preciosas e raras fontes para o amigo e colega de revista, lhas enviou. Claudio, assim, dedicou-se à escrita de seu Romance. Passados dois anos, Leonardo já tinha concluído o doutorado e Cláudio seu romance.

Uma certa tradição carioca marcou o reencontro. Cariocas têm a mania de protelar convites para encontros com a fórmula: vamos marcar um café qualquer dia desses? Esse dia necessariamente custará a chegar. Não se trata de má vontade, preguiça, mas a dinâmica dos cariocas, ocupados com suas extensas agendas sociais e profissionais que incluem pitorescos trasmontares do sol no Arpoador e cervejas na praia, no meio de chatas reuniões de trabalho, faz com que se adie indeterminadamente qualquer encontro por maior o interesse que as partes tenham neste. Mas, dois anos após o primeiro encontro nas movimentadas ruas do Centro Histórico do Rio, Cláudio e Leonardo se reencontraram, dessa vez à beira do mar que banha a Praça XV, em um lugar que outrora estivera junto à encosta do desaparecido Morro do Castelo. O objetivo do encontro era debater as impressões que Leonardo tivera da leitura do Romance Marx, o Pai e Satã. O Romance de Cláudio Carvalho. Ali nasceu nomeadamente a ideia de se constituir uma Sociedade Literária. Um grupo similar aos Inklings, a sociedade literária inglesa que teve como membros autores como C. S. Lewis e J. R. R. Tolkien. Imediatamente à ideia, surgem já os convidados que formariam o quarteto definitivo que comporia o núcleo duro da Sociedade (Como todos eram professores, tratava-se realmente de um núcleo duro). Cláudio traria Cid Prado Valle e Leonardo incluiria Pedro Machado.

Nesta formação, logo se notara a peculiar afinidade de mentes. Cláudio é Historiador de Formação, com Mestrado e Doutorado na área de Letras. Leonardo é formado em Letras, com Mestrado e Doutorado na área de História. Cid é integralmente de História, da Graduação ao Doutorado, Pedro é integralmente das Letras. Todos são, contudo, escritores.

Desta forma, às 14 horas do dia 09 de agosto de 2019, na Sala de Sócios do Clube de Aeronáutica, da Força Aérea Brasileira, na Praça Marechal Câmara, Centro do Rio, foi formalizada a fundação de uma Sociedade Literária, talvez levemente inspirada nos propósitos da Sociedade Literária do Rio de Janeiro (fundada em 1786 a poucos metros dali, e desmantelada por força de perseguição política em 1794), mas profundamente afinada aos objetivos dos Inklings. Ou seja, aquela seria uma instância para a leitura e para a crítica da obra de cada um de seus membros, com o sentido de diminuir a solidão do ato de escrever e de ajudar uns aos outros com um olhar de fora da obra e da cabeça, muitas vezes bagunçada, dos escritores.

Projeta-se, logo a frente daquele espaço, um enorme vazio. Este vazio antes fora ocupado pelo lugar de fundação da Mui Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Aquele vazio a nossa frente repercutia o vazio deixado por cem anos de outras demolições: culturais, sociais e até existenciais. Civilizatórias, se assim podemos dizer. O que ocupava antes o lugar daquele vazio seria o símbolo daquilo que ocuparia nossos ideais literários. O Morro do Castelo. Estava formada ali nossa identidade, nossos objetivos e nosso projeto. Surgia ali a Sociedade Literária do Morro do Castelo.

Desde então, muitas outras aventuras começaram, e as ideias, projetos e trabalhos vêm aumentando a cada dia, sendo compartilhadas à beira-mar em um já tradicional encontro que se inicia com um almoço e termina com um pôr do sol, tendo por testemunha e convidada a bela Ilha Fiscal e como sombra a história e o legado do Morro do Castelo, para nós ainda ali presente.